Reforma tributária: o que muda pra concreteira

A reforma tributária entrou na fase de teste em 2026. Veja o que já mudou na nota fiscal da concreteira e como se preparar antes que o preço real chegue.

Por Josias da MKT5118 de ago. de 20268 min de leituraVendas
Reforma tributária: o que muda pra concreteira

Você reparou em algum campo novo na nota fiscal da concreteira nos últimos meses? Se o seu contador já comentou algo sobre CBS e IBS e você deixou pra depois porque tinha orçamento pra fechar e caminhão pra rodar, este é o momento de parar cinco minutos e entender o que está em jogo. Não é burocracia distante. É a conta que vai definir a margem do seu m³ lá na frente.

A reforma tributária do consumo entrou oficialmente na fase de teste em 2026, e mesmo sem cobrança financeira ainda, o sistema já está rodando dentro da sua empresa. Quem entender o mecanismo agora sai na frente pra negociar contrato, ajustar planilha de custo e não levar susto quando a cobrança de verdade começar.

O que já mudou, na prática

A reforma substitui cinco tributos (PIS, Cofins, ICMS, ISS e IPI) por dois novos: a CBS, de competência federal, e o IBS, que reúne estados e municípios. Juntos formam o chamado IVA Dual. A transição entre o modelo antigo e o novo está prevista para acontecer entre 2026 e 2033, com os dois sistemas convivendo ao longo desse período (gov.br/receitafederal).

2026 é ano de teste. Segundo a Receita Federal, as alíquotas cobradas neste primeiro ano são simbólicas: 0,1% de IBS e 0,9% de CBS, valores que são compensados pela redução equivalente de PIS/Cofins (gov.br/receitafederal). Ou seja, o recolhimento é praticamente neutro no caixa da concreteira agora. O que muda de verdade é que a nota fiscal eletrônica já precisa trazer os campos de CBS e IBS preenchidos, e isso vale desde o início de 2026.

Se o seu sistema de emissão de nota ainda não está ajustado, essa é a primeira ligação a fazer, pro seu contador ou pro fornecedor do ERP. Nota rejeitada ou emitida errada trava faturamento, e concreteira não pode dar entrada de mercadoria sem nota certa.

Por que "ano de teste" não é sinônimo de "pode ignorar"

Dá pra entender por que muito dono de concreteira coloca esse assunto na gaveta: se não tem impacto financeiro agora, por que correr? O problema é que o sistema tributário de uma empresa não muda da noite pro dia. Ajuste de ERP, treinamento do time financeiro, revisão de contrato com cláusula de reajuste de imposto, tudo isso leva meses pra rodar direito.

Pensa num cenário hipotético: uma concreteira de porte médio decide só olhar pra CBS/IBS em 2027, quando a cobrança passar a valer de verdade. Só que o time financeiro nunca mexeu nos campos da nota, o contrato com as construtoras não previu cláusula de repasse de carga tributária, e o orçamentista continua cotando obra com a fórmula de custo antiga. Quando a alíquota cheia entrar em vigor, a margem que sobrava vira prejuízo, porque não deu tempo de repassar o efeito pro preço do m³ nem renegociar com quem já tinha contrato fechado. Empresa que testou o processo com calma em 2026 chega em 2027 treinada; quem ignorou vai correr atrás no meio do aperto.

O mesmo raciocínio vale pra quem já sofreu com repasse de custo em outra frente, como alta do cimento: quanto antes você formaliza o gatilho de reajuste no contrato, menos precisa implorar por reajuste depois que o custo já subiu.

O que a CBIC está negociando pro setor

A construção civil tem um argumento de peso na mesa: o setor é intensivo em mão de obra e em produtos com cadeia longa, e uma alíquota cheia de IVA pesaria demais sobre o preço final da obra. A CBIC defende um redutor de 60% pra construção civil, o que levaria a alíquota do IVA Dual de cerca de 27,97% pra algo próximo de 16,78% (cbic.org.br).

Reunião de negócios discutindo contrato e planilha de custoEsse redutor ainda está em negociação, e o percentual final pode mudar até a regulamentação completa. Mas já dá pra usar esse número como referência de conversa. Se um cliente construtor perguntar "quanto isso vai pesar no meu contrato", você tem argumento pra responder com dado real em vez de achismo, e isso constrói confiança justamente no momento em que todo mundo no setor está tateando a mesma dúvida.

O lado bom: crédito tributário mais amplo na cadeia

Nem tudo na reforma é motivo de preocupação. Um dos objetivos declarados do IVA Dual é acabar com o efeito cascata que hoje existe em tributos como o ICMS, quando um imposto pago lá atrás na cadeia não vira crédito completo pra quem compra depois. Segundo a explicação oficial da Receita Federal sobre a reforma, o novo modelo trabalha com não cumulatividade plena, ou seja, o CBS e o IBS pagos na compra de cimento, aço, agregado, combustível e outros insumos da concreteira devem gerar crédito integral pra abater do imposto devido na venda do concreto (gov.br/receitafederal).

Na prática, isso pode reduzir parte do peso tributário que hoje fica "escondido" dentro do preço do insumo, sem aparecer separado na nota. É cedo pra cravar um número de economia, porque isso depende de como cada elo da cadeia vai se comportar durante a transição, mas é um argumento a favor de acompanhar o processo de perto em vez de tratar a reforma só como ameaça. Quem entende o mecanismo de crédito consegue, inclusive, revisar a política de compra de insumo com outro olhar, o mesmo tipo de exercício que já vale a pena fazer ao repensar a margem do m³ vendido.

O que fazer na concreteira agora

Não precisa reformular a planilha inteira este mês. Mas dá pra andar em cinco frentes sem tirar o time do foco em vender concreto.

Revise contratos e cláusulas de reajuste

Contrato de fornecimento de longo prazo com construtora costuma ter cláusula de reajuste por índice, mas raramente prevê especificamente mudança de carga tributária. Peça pro seu advogado ou contador olhar os contratos vigentes e sugerir uma cláusula de repasse tributário pros próximos aditivos. Isso evita a discussão desconfortável de renegociar preço no meio de uma obra em andamento, o mesmo tipo de conversa difícil que aparece quando a construtora tenta espremer a margem do orçamentista.

Confirme o ajuste no sistema de emissão de nota

Ligue pro fornecedor do seu ERP ou emissor de nota fiscal e confirme, por escrito, que os campos de CBS e IBS estão configurados corretamente desde já. Erro de preenchimento hoje é treino gratuito; erro de preenchimento em 2027, com cobrança valendo, é multa e nota rejeitada travando entrega.

Prepare o discurso do orçamentista

O orçamentista não precisa virar especialista em direito tributário, mas precisa saber responder, com segurança, quando um cliente perguntar "esse preço já considera a reforma?". A resposta padrão em 2026 é simples: o efeito no caixa ainda é neutro por causa da compensação com PIS/Cofins, mas a concreteira está acompanhando a regulamentação pra ajustar preço na hora certa, sem repasse antecipado nem susto de última hora. Esse tipo de postura transparente costuma render mais confiança do que fingir que o assunto não existe, e ajuda a blindar a negociação de preço quando o assunto é sensível, como já falamos em como negociar com construtora sem perder margem.

Marque uma conversa trimestral com o contador

A regulamentação da reforma ainda está em movimento, com decretos e normas sendo publicados ao longo de 2026. Uma reunião curta a cada três meses com quem cuida da parte fiscal da concreteira evita que você seja pego de surpresa por uma mudança de alíquota ou de prazo que já estava nos jornais especializados havia semanas.

Treine quem responde ao cliente antes de treinar quem faz a nota

Não adianta só o financeiro entender a reforma se o vendedor ou o orçamentista trava quando o assunto surge numa negociação. Reserve uma reunião curta de time, sem precisar de consultoria cara, só pra alinhar a mesma resposta que sugerimos acima. Cliente que ouve respostas diferentes de dois vendedores da mesma concreteira sobre um assunto sensível como imposto perde confiança na empresa inteira, não só na pessoa que respondeu errado.

Perguntas frequentes

A reforma tributária já aumenta o preço do concreto em 2026?

Não na prática, porque as alíquotas de teste (0,1% de IBS e 0,9% de CBS) são compensadas pela redução de PIS/Cofins no mesmo período (gov.br/receitafederal). O efeito real de preço começa a aparecer conforme a transição avança nos anos seguintes.

Preciso mudar o sistema de emissão de nota fiscal agora?

Sim, se ainda não mudou. Os campos de CBS e IBS já são obrigatórios na nota fiscal eletrônica desde o início de 2026, mesmo no ano de teste. Confirme com o fornecedor do seu sistema que essa parte está ativa.

O redutor de 60% pra construção civil já está garantido?

Ainda não. É o percentual que a CBIC vem defendendo nas negociações da regulamentação (cbic.org.br), mas o valor final depende de como a lei complementar for fechada. Vale acompanhar, não tratar como certeza.

Vale renegociar contrato com construtora só por causa da reforma?

Não é preciso rasgar contrato em vigor, mas é o momento certo de incluir cláusula de repasse tributário nos próximos aditivos e nos contratos novos. Assim você já entra preparado quando a cobrança real começar a valer.

Reforma tributária não é papo de contador distante do dia a dia da concreteira: é peça de precificação e de contrato, e quem organiza isso com antecedência negocia de posição mais forte quando a conta chegar de verdade.

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Josias · MKT51

Da equipe da MKT51, aceleradora de vendas especializada em concreteiras. Quem escreve aqui atende concreteira todos os dias.

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